Sobre a Deficiência Visual

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A DEFICIÊNCIA NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

― BOAS PRÁTICAS PARA JORNALISTAS ―

 

[Guia de Boas Práticas para Jornalistas elaborado pela equipa do programa "Consigo" (INR e RTP)
com o objetivo de auxiliar os profissionais da comunicação social a lidarem com as questões da deficiência]
 

    ÍNDICE

  1. Aspetos básicos a ter em conta
    1.1 A diversidade humana é uma realidade e não pode ser ignorada pelos jornalistas
    1.2 Conceitos na ordem do dia - Deficiência, Incapacidade e Funcionalidade
    1.3 As pessoas com deficiência precisam que os seus direitos sejam respeitados – por todos os cidadãos, e não apenas na legislação
  2. Mitos em torno da deficiência
  3. A Deficiência nos Media – Indicações para Jornalistas
    a) informação relevante
    b) como veicular a deficiência
    c) como lidar com a pessoa com deficiência
    d) como falar sobre a deficiência

 

1. ASPETOS BÁSICOS

1.1 A diversidade humana é uma realidade

…e não pode ser ignorada pelo trabalho jornalístico. É importante divulgar e incluir informação que seja relevante para este público, que representa uma larga fatia da população portuguesa.

Enquanto os Censos 2011 não disponibilizam dados mais atuais, sabe-se pelos Censos de 2001 que pelo menos 6,1% da população – mais de 600 mil portugueses – têm uma deficiência.

Se for tida em conta a incapacidade – um conceito mais abrangente, que pode ser provocada por deficiência, doença permanente ou temporária, ou por outras circunstâncias – os números são ainda mais relevantes. Um estudo realizado em 1995 pelo SNR aponta para mais de 9% da população com incapacidades – mais de 900 mil pessoas.

Inquérito Nacional às Incapacidades, Deficiências e Desvantagens, disponível em: http://www.inr.pt/content/1/111/cadernos-snr

Tendo ainda em conta que a população portuguesa se encontra em clara tendência de envelhecimento, e que a idade se relaciona proximamente com a incapacidade e deficiência, torna-se ainda mais importante que os jornalistas, no trabalho que desenvolvem, tenham em conta este público, os seus interesses e capacidades.


1.2 Conceitos na ordem do dia – Deficiência, Incapacidade e Funcionalidade

Hoje em dia, a deficiência já não é encarada como um problema exclusivamente médico do indivíduo, mas como um problema social, do meio em que o indivíduo se insere: se houver muitas barreiras – físicas, sensoriais, na atitude de quem está à volta – a deficiência será mais limitadora; se essas barreiras não existirem, o indivíduo pode autonomia.

A Organização Mundial de Saúde, na atual Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, substituiu a ênfase dada à Deficiência pelos conceitos de Incapacidade e Funcionalidade. É uma visão que vai para além da deficiência.

“A Funcionalidade é um termo que engloba todas as funções do corpo, atividades e participação; de maneira similar, incapacidade é um termo que inclui deficiências, limitação da atividade ou restrição na participação.”  Fonte: http://www.inr.pt/uploads/docs/cif/CIF_port_ 2004.pdf.

Na prática, significa que uma pessoa com deficiência pode ter maior ou menor grau de incapacidade, ser mais ou menos funcional no seu dia a dia consoante as condições que encontra no meio físico e social. Por isso se torna tão importante melhorá-lo, torná-lo para Todos. E Todos temos essa responsabilidade. Até porque a incapacidade é encarada, à luz do novo paradigma, como algo que ocorre a todas as pessoas, em alguma altura da vida.

Também os inquéritos dos Censos 2011 já tiveram em conta esta nova visão internacional: procurou-se apurar a incapacidade e funcionalidade, e já não apenas a deficiência.


1.3 As pessoas com deficiência precisam que os seus direitos sejam respeitados

Tornar o meio em que vivemos acessível e inclusivo de Todos não é uma questão de solidariedade – é uma questão de respeito pelos direitos humanos das pessoas com deficiência ou incapacidade.

Portugal ratificou em 2009 a Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, bem como o Protocolo Opcional, comprometendo-se a transpor os princípios da Convenção para a legislação e para a realidade nacional.

Mais informação aqui:

http://www.inr.pt/content/1/830/convencao-sobre-os-direitos-das-pessoas-com-deficiencia-publicacao-oficial

A legislação portuguesa é considerada uma das mais avançadas nesta matéria, mas as atitudes das pessoas não se alteram por decreto. É preciso que sejam os cidadãos – professores, arquitetos, empregadores, jornalistas, colegas – a incluírem as pessoas com deficiência ou incapacidades, e a encará-las como cidadãos de pleno direito.

Em Portugal, a discriminação é proibida e penalizada, mas poucas pessoas sabem disto, e menos ainda se queixam.


2. MITOS EM TORNO DA DEFICIÊNCIA


Mito n.º 1

As pessoas com deficiência só se interessam por assuntos ligados à deficiência

Muitas pessoas com deficiência terão certamente um interesse acrescido por esta temática, porque se identificam com ela mas, como os demais cidadãos, têm uma variada panóplia de interesses.

Por esta razão, é importante que os jornalistas tenham em mente que, entre o seu público leitor/espetador/ouvinte, estão pessoas com deficiência ou incapacidade e, consequentemente, é importante incluírem no seu trabalho informações que sejam relevantes para estas pessoas.
 

Mito n.º 2

As pessoas com deficiência não são ativas

Poderá ser verdade nos casos mais graves, ou nos casos em que o meio envolvente não oferece condições que permitam a autonomia. No entanto, em regra, as pessoas com deficiência trabalham, fazem desporto, viajam, constituem família e podem ter uma vida tão ativa como qualquer outro cidadão. Cada caso é um caso, mas a inatividade não é, de forma alguma, a regra. Apenas é, talvez, mais vezes mostrada na comunicação social.
 

Mito n.º 3

As pessoas com Paralisia Cerebral têm deficiência intelectual

Pode acontecer, mas não é a regra. A designação deste problema – Paralisia Cerebral – pode levar a esse engano, mas o que se passa na realidade é que a zona do cérebro que coordena certas partes do corpo (os movimentos, fala…) está afetada. Portanto, trata-se de um problema eminentemente físico, e não intelectual ou mental. É importante ter isto em conta na forma como lidamos com pessoas que têm este problema. Muitas vezes, a articulação das palavras está comprometida e é difícil compreender o que dizem, mas é importante lembrar que se trata apenas de uma questão física.
 

Mito n.º 4

Acessibilidade significa ausência de barreiras arquitetónicas

Também, mas não só. A acessibilidade é um conceito muito complexo e diversificado – tanto quanto as necessidades especiais de cada pessoa. Pode ser física, sensorial, ou ao nível da informação.

Damos um exemplo: em Portugal, existe o GAM, Grupo para a Acessibilidade aos Museus, um conjunto de profissionais de diversos espaços museológicos que procuram torná-los acessíveis a todos os públicos. E, por isso, muitos museus portugueses já contemplam oferta acessível a todos os públicos – além da ausência de barreiras físicas, ou das alternativas para transpor estas barreiras, existem legendas em Braille; peças para tocar por quem não as pode ver; audioguias que as explicam (e que podem ser úteis a pessoas com e sem deficiência visual); pavimento táctil no chão, para orientar quem não vê e usa bengala; videoguias com língua gestual, a explicar as peças a pessoas surdas, catálogos em Braille, ou em linguagem fácil, para ser compreendida por todos (pessoas com deficiência intelectual, idosos pouco letrados, crianças…).

A acessibilidade é uma mais valia para todos, pois facilita a circulação e a apreensão de conteúdos por todos, sem excluir ninguém.
 

Mito nº 5

A acessibilidade é importante apenas para pessoas com deficiência

Não é verdade. No que toca à acessibilidade física, é facilitadora para pessoas com deficiência e – não esquecer – seus acompanhantes, que assim evitam esforços extra; é ainda facilitadora para pessoas idosas, cuja agilidade já não é o que era; para quem tem uma limitação física temporária, por exemplo por ter partido um membro inferior; para quem empurra carrinhos de bebés, ou transporta pesadas malas com (ou sem) rodas; facilita cargas e descargas de material… enfim, a acessibilidade física facilita a vida de muitas pessoas.

A acessibilidade na informação também serve todas as pessoas – um texto em linguagem fácil pode ser entendido por todos sem exceção, e é especialmente adequado para quem tem deficiência intelectual, baixa literacia, ou ainda para crianças.

A acessibilidade sensorial também pode ser utilizada por Todos ou, mesmo que não o seja, não interfere nem prejudica quem não a utiliza.
 

Mito n.º 6

As pessoas com deficiência têm quase sempre poucos recursos financeiros

Essa é uma ideia muito veiculada pelos casos – dramáticos – apresentados na comunicação social. Mas não corresponde necessariamente à realidade.

As crianças com deficiência nascem em qualquer família, as pessoas milionárias também têm acidentes, envelhecem e perdem faculdades, e larga fatia dos cidadãos com deficiência trabalha, portanto tem tantos recursos como a restante população.
 

Mito n.º 7

Tratar o tema da deficiência é deprimente

Se apenas nos centrarmos em casos extremos, poderá ser, claro. A dor alheia toca-nos inevitavelmente. Mas a deficiência não se resume a casos extremos e dramáticos (muitas vezes associados a pobreza), e é um erro pensar que a maioria das pessoas com limitações físicas ou sensoriais vive amargurada com o facto de terem uma deficiência. Trabalham, têm família, hóbis, e fazem o mesmo que os restantes cidadãos – apenas de maneira diferente.

Há pessoas com deficiência a praticar vela, ténis, canoagem, basquetebol, a trabalhar em áreas tão diferentes como a área jurídica, o cinema e a televisão, enologia, ou a dar aulas ou consultas médicas, a fazer voluntariado para ajudar outras pessoas… a ultrapassar limitações e a ter vidas interessantes!


3. A DEFICIÊNCIA NOS MEDIA - INDICAÇÕES PARA JORNALISTAS


a) No trabalho jornalístico – seja qual for o tema ou o órgão de comunicação social – devemos ter em conta que há ouvintes/espetadores/leitores com deficiência ou incapacidade, e por isso faz sentido incluirmos informações que sejam relevantes para estes cidadãos.

Ex: Quando é noticiado que uma determinada praia tem bandeira azul, muitas vezes essa mesma praia também tem a bandeira da acessibilidade – pode ser frequentada por todos. E isto raramente aparece nas notícias. Em 2011, existiam mais de 70 praias acessíveis no país.

Ex: Na inauguração de um novo espaço cultural ou de lazer, podemos inquirir os responsáveis – e informar o público – sobre se existem ou não acessibilidades para todos, ou condições para públicos especiais. Muitos museus, por exemplo, oferecem a possibilidade de os visitantes cegos tocarem nas peças. Outros instalaram sistemas inovadores de acesso ou informação para públicos especiais, mas os jornalistas raramente lhes perguntam sobre isto.

Ex: Em reportagens sobre turismo, porque não incluir informações sobre as condições de Turismo Acessível – seja na hotelaria, transportes, serviços… Sabia que a Lousã apostou em ser o primeiro destino acessível nacional? Ou que em Londres, 100% dos autocarros e táxis têm rampas móveis e são acessíveis a pessoas com mobilidade reduzida? Ou que na Suíça foi criado um hotel para pessoas muito altas, que não se ajustam às medidas padrão existentes na hotelaria?


b) Outro aspeto muito importante é a forma como a deficiência é veiculada na comunicação social.

Por um lado, há que centrar o trabalho jornalístico nas pessoas – suas capacidades, interesses, know how, etc. – e não apenas na deficiência que têm. Esta mudança de foco torna os conteúdos mais interessantes, mostra a pessoa na sua plenitude e evita o dramatismo excessivo a que muitas vezes assistimos. Há ainda que evitar o desnecessário e deselegante voyeurismo de mostrar lesões ao pormenor, algo que pertence apenas à intimidade da pessoa.

Por outro lado, as pessoas com deficiência podem também ser chamadas a dar um contributo – como entrevistados, comentadores, etc. – sobre diversos temas, uma vez que exercem cargos nas mais diversas áreas de atividade: ensino, empreendedorismo, saúde, direito… É um engano – e uma forma de discriminação – considerar que apenas entendem de “deficiência”.


c) Como lidar com pessoas com deficiência

A falta de familiaridade com a deficiência pode levar muitos jornalistas a afastarem-se do tema. Por isso, aqui ficam algumas informações úteis que podem ajudar. O desconforto desaparece, com a convivência!

– Se marcar um encontro ou entrevista com alguém com mobilidade reduzida, escolha um local com acessibilidade e com casa de banho adaptada – nenhum dos dois ficará satisfeito se o entrevistado tiver de ser carregado ao colo, para aceder ao espaço.

– Se quiser alguma informação de uma pessoa com deficiência, fale com ela diretamente, e não com o acompanhante ou intérprete. Ninguém gosta de ser tratado como se não estivesse presente.

– Resista à tentação de fazer festas num cão guia, ele está a trabalhar.

– A maioria das pessoas com deficiência não se importa de responder a perguntas sobre a sua condição – a origem da deficiência, a forma como desempenha tarefas… Use de bom senso, delicadeza e respeito, como faria em qualquer outra circunstância.

– Para cumprimentar uma pessoa cega, fale com ela, para que perceba a sua presença e identifique-se. O mais provável é estender-lhe a mão, que poderá apertar.

– Se entrevistar uma pessoa anã, ou em cadeira de rodas, sente-se para ficar ao nível dela – é desconfortável estar sempre a olhar para cima.

– A maioria das pessoas em cadeira de rodas não precisa de ajuda para se deslocar ou para manobrar a cadeira, mas se for esse o caso, pergunte se pode ajudar, e empurre a cadeira com cuidado, e apenas quando a pessoa der indicação, para evitar acidentes.

– Geralmente, as pessoas com paralisia cerebral têm dificuldade em articular a fala. Tenha paciência e pergunte, se não perceber. Mas lembre-se de que a deficiência é apenas motora, não intelectual.

– Se entrevistar uma pessoa surda, peça a presença – gratuita – de um intérprete. Pode ser alguém da associação, um amigo dela… A pessoa certamente arranjará maneira. E claro, ao falar com uma pessoa surda, não adianta levantar a voz. Fale normalmente, tentando articular bem as palavras – muitos surdos fazem leitura labial.


d) Como falar sobre a deficiência?

Outro aspeto que pode afastar os jornalistas do tema é a falta de à vontade com a terminologia correta a empregar, para não ferir suscetibilidades. Eis um pequeno guia que facilitará a vida aos profissionais:

 


A EVITAR

CORRETO

O deficiente
(reduz a pessoa à sua deficiência)

Pessoa com deficiência

Surdo-mudo
(São raríssimos os casos em que pessoas surdas são também mudas – muitas não falam simplesmente porque não ouvem, mas não têm qualquer deficiência na fala.)

Surdo, pessoa surda
 

Invisual
(É uma espécie de eufemismo, totalmente desnecessário)

Cego, Pessoa cega

Amblíope

Pessoa com baixa visão

Linguagem Gestual
(Totalmente errado. Trata-se de uma Língua, consagrada na Constituição da República desde 1997, a par da Língua Portuguesa)

Língua Gestual

Coxo, manco…

Pessoa com mobilidade reduzida

Velhos, idosos

Pessoas idosas, seniores.

Casa de banho para deficientes
 

Casa de banho adaptada

Ajudas técnicas
(termo a cair em desuso; corresponde a...)

Produtos de apoio

Lugares de estacionamento para deficientes

Lugares de estacionamento para pessoas com mobilidade reduzida, ou com deficiência (motora)

Cão-guia
(treinado para acompanhar pessoas com deficiência visual)

Cão de assistência
(treinado para dar assistência a pessoas com mobilidade reduzida, ou com deficiência auditiva)



Fonte: Magazine “Consigo” da RTP2.

 


Publicado por MJA [10.Mar.2012]

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